sábado, 27 de março de 2010

OS VENDILHÕES DO TEMPLO

Excertos do discurso proferido por Tomás dos Santos, professor do Liceu Nacional da Póvoa de Varzim, em 1911, na sessão que se realizou no Centro Operário Republicano Radical Dr. Afonso Costa, comemorando os heróis de 5 de Outubro.

Meus Senhores:

Faz hoje precisamente um ano que o povo de Lisboa por um sublime esforço de patriotismo, num altivo arranco de heroicidade e de revolta contra a nefasta monarquia dos adiantamentos ilegais, depôs esse regímen de corrupção em que a vileza era motivo de preferências e a virtude azo de perseguições.
Esse esforço soberanamente belo, o acendrado espírito de civismo que então se manifestou da parte do povo mereceram o aplauso do país inteiro, mereceram o respeito e a admiração das nações mais adiantadas em civilização e progresso.
De norte a sul, em Portugal e colónias, a República foi recebida de braços abertos com verdadeiro entusiasmo[1].
Da monarquia nem um só defensor apareceu da parte do povo!
A república foi nessa ocasião um talismã, uma nova radiação que, penetrando o espesso véu que velava as consciências, mostrou serem republicanos a maior parte dos homens sem mácula, que a monarquia julgava seus leais e dedicados defensores.
A gloriosa implantação da República foi a pedra do toque das convicções políticas, foi o Sol nascente para que se voltaram todas as atenções, e vede que era tal a febre de transformismo, era tal a febre de aderir, era tal a febre de continuar adentro da República a adiantada obra de decomposição moral que até o padre Matos e o traidor Couceiro largara a coroa, o hissope e a cruz para, empunhando o barrete frígio, confraternizarem com o povo.
Conta-se mesmo, muito em segredo, que até o reizinho, refeito do susto que apanhou ao fugir da sua gaiola dourada, escreveu logo a Gaby Deslys convidando-a também a …… aderir.
Andava o beato rei Manolo carregado de rosários, coberto de imagens de santinhos à semelhança do fanático Luís XI de França, mas, ó fatalidade, nem Deus nem os santos milagreiros o impediram de ser destronizado.
O clero é, porém, o eterno fomentador da discórdia e, a julgar pela agitação em que hoje se encontra, parece que o derruir dum trono é o agonizar duma religião.
Ora se o Deus das beatas, se o Deus de que o papa é o infalível representante é infinitamente poderoso, se por um simples pensamento, reparem bem, condena aos maiores tormentos num fogo eterno, e se esse Deus, sendo omnipotente e omnisciente, se tem até hoje conservado mudo e quedo às súplicas dos paivantes e canastras, não será porque também ele tenha aderido?
Dizei, meus Senhores, a esses homens de saia e cabeça rapada que não mais conspirem – que lhes falta o apoio divino[2].
Que o fogo da Inquisição se apagou para não mais se acender, como ainda há bem pouco tempo queriam um degenerado bispo português e a D. Amélia. – Esse fogo apagou-se, é certo, mas inundado pelas lágrimas de tantos inocentes que só o recordar faz estremecer os corações mais empedernidos!
Os seus patíbulos apodreceram ensopados em sangue de centenas de milhares de vítimas!
Dizei-lhes ainda que soou a hora da Liberdade e que o povo enfim é livre!
As algemas da religião não mais pesarão sobre as nossas consciências.
Não mais haverá procissões de mulheres nuas, nem o povo consentirá que a confessionário continue a ser alcova de prostituição!
Não continuarão a roubar o património dos nossos filhos nem hão-de repetir os tormentos que nos fizeram padecer em nome de Deus, que, como eles dizem, é de infinita bondade, mas pune as suas criaturas com torturas infinitas em crueldade e duração!
Quanto aos jesuítas - essa seita maldita que em todos os tempos fez e aconselhou o roubo, a violação das donzelas, o regicídio e até o assassinato do próprio pai, que como cães danados foram enxotados dos próprios países católicos, esses, de comum acordo com os outros, preparam os alfanges com que vos querem cortar a cabeça.
Acautelai-vos dessa raça de víboras que a ninguém perdoa.
O jesuíta é o lodo da humanidade, é o verdadeiro Anticristo, é o próprio Diabo disfarçado[3].
Essa seita maldita da Companhia de Jesus, expulsa da Espanha por Carlos III na noite de 3 de Março de 1767, foi recebida a tiros pelos soldados do papa quando pretendiam desembarcar em Civitavecchia, alegando que o papa não podia sustentar tanta gente.
Corridos de todos os pontos da terra, só passados meses puderam desembarcar na Córsega, donde pouco depois foram expulsos pela França ainda então monárquica.
Tais foram os crimes desta seita que o papa Clemente XIV viu-se obrigado a abolir a Ordem da Companhia de Jesus em 11 de Julho de 1773. Os jesuítas vingaram-se, porém, envenenando-o em Setembro doa no seguinte, e Roma inteira gritou bem alto: clemente XIV bebeu a água tofana[4].
A água tofana era o veneno dos Bórgias.
As congregações religiosas, que foram sempre os maiores factores de devassidão, não voltarão a Portugal sem que o povo, que é hoje soberano, faça justiça por suas mãos.
A Igreja, que foi sempre a inimiga declarada da Ordem, da Liberdade e do Progresso, ei-la separada do Estado, lamentando não poder assar toda a gente[5].
Eu vou ler-vos alguns dos seus crimes, para que não digam que eu calunio.
Começo pelos crimes da Inquisição, que ninguém, contesta, limitando-me a Portugal e Espanha, e daí avaliareis o que foi nos outros países. 
*
*        *
 […]

Basta, meus Senhores, estou horrorizado!
E dizem eles, os padres, que quem desacredita a Religião Católica somos nós, depois de tantos crimes, tantas infâmias em nome de Deus!
Eu sei que alguns dos Senhores são religiosos: notai que eu não pretendo atacar as vossas crenças nem perturbar as vossas consciências.
O Cristianismo não é o Catolicismo[6].
Vos seguis o Cristo, que disse “amai o próximo como a vós mesmos”. Eles desconhecem o amor do próximo, amam o Deus de Roma, vingativo, que só perdoa por dinheiro!
A República, sendo um regímen de paz e amor, não podia aliar-se a uma Igreja cheia de crimes e de perversidade.
Meus Senhores! Os revoltosos de 5 de Outubro fizeram uma grande obra, mas sem as sábias leis de Afonso Costa, ela não seria completa.
Recordando tantos crimes, tanta maldade humana acobertada pela capa de um Deus incompreensível, eu não sei que mais admirar: - se a definitiva[7] expulsão dos jesuítas e das Congregações religiosas, se a acertada Lei da Separação do Estado das Igrejas!
Viva Afonso Costa!
Viva o Partido Republicano Democrático!
Viva a república!
Viva a Pátria!

Transcrito do jornal poveiro A Propaganda, de 11 de Outubro de 1911.


[1] Na Póvoa não foi bem assim!
[2] Não era nada assim. Então a Igreja não teve por si as aparições de Fátima?
[3] Onde terá Tomás dos Santos aprendido estas tiradas blasfemas e mentirosas?
[4] Clemente XIV morreu de morte natural:  “Ma che il decesso fosse dovuto solo all'età e a cause naturali lo confermarono sia il medico personale che il confessore, che dissiparono le voci di una morte per avvelenamento”.
http://it.wikipedia.org/wiki/Papa_Clemente_XIV
Este Papa suprimiu os Jesuítas, mas por razões políticas, não morais ou teológicas (e não suprimiu toda a Ordem).
[5] O que havia de lembrar a este professor provisório!
[6]  A crítica ao Catolicismo empurra-o para o Protestantismo.
[7]  Definitiva, no desejo do legislador e de Tomás dos Santos.

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