sábado, 27 de março de 2010

O ADMINISTRADOR TOMÁS DOS SANTOS E O PRIOR DA PÓVOA DE VARZIM

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QUATRO MESES DE UM DURO E DESIGUAL CONFRONTO

1. Antes do “início das hostilidades”

A atitude prepotente e retrógrada que a República usou na sua relação com a Igreja Católica foi na Póvoa ocasião para uma resistência verdadeiramente heróica.
O Prior aceitava firmemente o seu compromisso com a Igreja (“dê o que der”), o Administrador estava comprometido com a República. Como a República pretendia destruir a Igreja, o entendimento era impossível.
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Quem era Tomás dos Santos?

O professor Sebastião Tomás dos Santos, a quem na Póvoa chamavam o Zefinha, nasceu em 1875 ou 1876 no lugar de Laceiras, em Cabanas, Carregal do Sal. Pelos vistos teve um começo muito humilde, como pastor. Terá então revelado uma inclinação muito forte para o estudo: se numa das mãos lhe viam a vara de pastor, na outra empunhava um livro. Estudou em Lisboa, sendo já na altura um defensor da república. Veio para o Liceu da Póvoa em 1908, para ensinar Matemática, como professor provisório, com 34 anos e sem dúvida já casado. Viveu no arrabalde sul da Póvoa, na “Vila de S. Brás”. Era conhecido o seu gosto por flores, que cultivava no jardim da casa.
Em 27 de Fevereiro de 1911, tornou-se administrador republicano do concelho da Póvoa de Varzim, em substituição de José Pedro de Sousa Campos. No final desse ano lectivo, foi-se embora do liceu e certamente também da Póvoa. Ao menos durante parte do tempo da sua administração, acumulava, com o ensino, ainda a responsabilidade do registo civil.Edital do Administrador Tomás dos Santos. Repare-se no jeito pomposo como o documento começa.

Tomás dos Santos devia pertencer àquele grupo de intelectuais ditos liberais que o Mons. Manuel Amorim uma vez assinala, ligados ao Café Chinês e ao Centro Republicano. Aquando da proclamação da República na Póvoa de Varzim, dia 7 de Outubro de 1910, não faltou à chamada para apor a sua assinatura. Era um homem novo, um lutador republicano, com preparação académica pouco comum.

Quase nas vésperas da tomada de posse, Tomás dos Santos teve uma pega com um colega, que o Administrador precedente relata, aproveitando para exaltar a pessoa de Tomás dos Santos.

Quais as competências dum administrador de concelho?
Teoricamente, ele era a primeira autoridade concelhia, mesmo acima do presidente da câmara. Como representante do Governo, intervinha em áreas de economia, de inspecção e vigilância, de polícia geral e de registo civil. Para o presente caso, não se justifica descer a pormenores.

Quem era o Prior da Póvoa?

Chamava-se Manuel Martins Gonçalves da Silva (Beiriz, Póvoa de Varzim, 27.02.1864 - Póvoa de Varzim, 1914) e coube-lhe a muito difícil tarefa de fazer na sua paróquia a transição entre o regime monárquico e o republicano. Não é possível imaginar hoje como isso foi custoso e os documentos deixarão porventura muita coisa por esclarecer.
Em 1910, o Prior da Matriz era o pároco de toda a vila, pois ainda só havia uma paróquia. Por feitio, ele era um lutador que se não acobardava perante ameaças. Por isso, apesar de ter assinado a proclamação da República em 7/10/1911 e de a ela ter francamente aderido desde o princípio, ergueu depois alto e bom som a sua voz, mesmo tendo de enfrentar a administração do concelho e o tribunal. Por fim, o Ministro da Justiça, por decreto, passando por cima das instâncias judiciais, em finais de Março de 1912, condenou-o a exílio.
O Prior da Póvoa de Varzim, P.e Manuel Gonçalves da Silva

A República foi proclamada em Lisboa no dia 5, quarta-feira; na Póvoa foi-o na sexta, dia 7. No princípio da outra semana, os jornais poveiros – havia seis – não perderam a oportunidade de marcar a adesão ao novo regime; nalguns casos com um exagero que hoje só podemos considerar ridículo. Havia também um jornal afecto ao Prior, O Poveiro, de que saíram dois números nessa mesma semana, um na terça, dia 11, e outro no sábado, dia 15.
O editorial do dia 11, a três colunas, começa assim:

Muitos ainda julgam um sonho a proclamação da república em Portugal.
Todavia a realidade aí está evidente.
Consumado o facto, só resta a todo o bom patriota acatar as novas instituições, porque uma guerra civil seria a perda irremediável das colónias e talvez a da nossa autonomia.
O momento é grave e decisivo para a vida da Pátria.
Se todos aceitarmos o novo regime, e ele inaugurar uma administração austera, isenta dos defeitos e erros condenados na monarquia deposta, ainda é possível a regeneração nacional.
Se a república governar bem – Viva a República!
Se, porém, a mudança de regime só servir para exercer retaliações, e continuar o desleixo pelo interesse geral: se, numa palavra, a uns corruptos se substituírem outros corruptos, então o pobre Portugal exalará o seu último alento, e seremos em breve os polacos do Ocidente.
Neste caso, a nós, os que temos ainda alma para amar este glorioso torrão onde nascemos, só nos resta exclamar como o poeta Pátria, ao menos, juntos morremos, e morrer com ela.

A adesão ao novo regime é ainda mais entusiasta, mas sempre realista, sem retórica despropositada e sem ponta de saudosismo monárquico, noutro editorial, mais extenso, sob o título de “A nossa atitude”, saído no dia 15. Por isso, o Prior terá no futuro toda a legitimidade para se opor aos continuados desmandos republicanos, e o seu exílio será assim ainda mais nitidamente injusto.

No dia em que os outros jornais da Póvoa anunciavam com algum alarido a tomada de posse de Tomás dos Santos, O Poveiro prestou uma vasta homenagem ao pároco local. Um tal Aníbal Passos escreveu então:

Efectivamente o Prior da Póvoa é alguém. Como todos aqueles que marcam uma personalidade, tem sido amado e odiado, tem sido objecto das dedicações mais acendradas e das calúnias mais grosseiras. Temperamento de lutador, não há perigos que o amedrontem nem inimigos que o façam vacilar. Doce com os fracos, a quem ampara, e indomável perante os poderosos, que nunca o apavoram, realiza admiravelmente a formosa imagem bíblica de mel fabricado na fauce despida de um leão, pois que, à brandura frágil duma criança junta as energias dum forte física e moralmente.

Os dois campos e as suas forças

O Prior da Póvoa não podia esperar muito da imprensa local - afora O Poveiro. Quando muito, contaria com a compreensão do Estrela Povoense. No campo adversário, estavam o verrinoso O Intransigente, no seu estilo de pasquim, A Propaganda, que não ficava muito atrás, e O Comércio da Póvoa de Varzim, no geral mais contido.
Esta diferença numérica era porém contrabalançada, ao menos em parte, pela qualidade d'O Poveiro, que abordava destemidamente, com segurança, sem atitudes preconceituosas, as posições da Igreja e os assuntos de interesse local mais variados.
Por vezes os colunistas adversos ao Prior alteavam o estilo, querendo dar-lhe uma solenidade pouco habitual, ainda que no tom de diatribe; assinalavam essa solenidade com destaques tipográficos especiais. Era o combate político a recorrer às armas duma retórica empolada.
Havia ainda a luta económica, pois a competição entre os seis semanários para captar o público da pequena vila deveria ser enorme.

2. A tomada de posse do novo Administrador: o lobo vestiu-se de cordeiro

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A tomada de posse de Sebastião Tomás dos Santos como administrador teve lugar em 27/2/1911; ele próprio o anunciou em telegrama ao Governador Civil:

Tenho a honra de levar ao conhecimento de V. Ex.cia que tomei hoje posse do cargo de Administrador deste concelho, para que fui nomeado por despacho do Ex.mo Ministro do Interior, de 23 do corrente.

Na altura proferiu este discurso:

Cidadãos e amigos
Tomando posse da Administração deste concelho, devo confessar-vos que, ao contrário do que alguém possa supor, não me seduziram as honras do mando nem fui nunca alvejado pela vaidade do destaque.
Aceitei de boa vontade este cargo não pelo que ele tem de agradável, mas sim pelo que ele tem de espinhoso.
Humilde obreiro da República, pela República trabalhei sempre; e de tal modo defendi o meu ideal que como perigoso às instituições monárquicas, eu me vi obrigado a abandonar Lisboa.
Como humilde defensor da República me apresento hoje aqui.
Não duvideis nunca da sinceridade das minhas intenções, não duvideis nunca da minha vontade de acertar.
Por mais de uma vez fui perseguido pela monarquia, mas nem a República é um regímen de perseguição, nem eu tenho qualidades de perseguidor.
A República é um regímen de paz, de moralidade, de justiça, de progresso e de tolerância.
Mas não devem os mal-intencionados confundir a tolerância com a cobardia.
A República é um campo aberto a todas as actividades; todo o homem honesto, todo homem de passado limpo de entre vós deve com a parcela do seu esforço cooperar no engrandecimento desta terra, deve com a sua boa vontade cooperar na defesa da República.
É essa leal e dedicada cooperação de patriotas que eu espero de todos e agradeço a cada um.
Fostes algum dia monárquico?
Talvez.
Monárquico sincero, leal, honrado, sem dúvida.
Mas no dia em que a Monarquia se vos apresentou manchada pela corrupção, coberta de lama por latrocínios de milhares de contos, estigmatizada enfim pela degradação moral mais abjecta, perdestes a vossa fé monárquica, e a República pôde implantar-se sem um único protesto vosso.
Ora se não estais com a Monarquia estais com a República e esta muito espera de vós.
Entre vós nasceram Eça de Queirós e Rocha Peixoto, homens que não honram somente esta terra, mas todo o Portugal, honram a nossa pátria.
Entre vós nasceu o ilustre chefe local do partido republicano, Dr. João Pedro de Sousa Campos, cuja austeridade de carácter é de uma honestidade inconcussa, cuja envergadura moral e política honra não só esta vila, mas todo o Partido Republicano Português.
Copiai estes virtuosos exemplos de trabalho e de nobreza de carácter; educai vossos filhos na escola da moral e do dever e vê-los-eis, em breve, se o não fordes já, sinceros republicanos, sem haver dado por isso.
É que a República é a Moral, é a Ordem, é a Liberdade, é o Progresso.
Cidadãos! Meus Amigos!
Viva a República!

É um texto bem escrito e construtivo, de paz, ao menos na aparência. De facto, estas palavra stinham para ele um sentido que escapava a muitos dos seus ouvintes.

O primeiro ataque de Tomás dos Santos, a reacção d'O Poveiro, a grande humilhação do Administrador

Mas Tomás dos Santos não esperou muito para despir a pele de cordeiro e mostrar-se na sua face lupina. Debatia-se então sobre um documento dos bispos portugueses que deveria ser lido nas igrejas, ao que Afonso Costa opõs uma terminante proibição. O novo Administrador toma, no caso, uma atitude bem capaz agradar aos seus mais radicais correligionários e certamente inspirada no estilo discriminatório do Ministro da Justiça.
É ao mesmo Afonso Costa que no dia 5, “de manhã”, envia o seguinte telegrama:

Ex.mo Ministro da Justiça
Lisboa

Ao tomar posse estava avisado prior Póvoa que não leu pastoral mas falando missa conventual disse ia consultar o arcebispo e se esse mandasse ler lia desse o que desse. Estão intimadas testemunhas terça-feira. Abades Amorim e Terroso leram parte pastoral antes avisados. Estes dois padres são conhecidos como reaccionários principalmente Amorim. Prior Póvoa maluco. Restantes sete freguesias não leram. Arcebispo primaz telegrafou ontem arcipreste Beiriz deste concelho aconselhando abades não ler pastoral nem referir-se a ela. Hoje cinco horas manhã saí percorrendo várias povoações mandando emissários às outras, nada anormal.
Administrador do Concelho.
Expedido em 5, de manhã.
Texto autógrafo do telegrama de Tomás dos Santos

Grande fervor republicano o do novel Administrador! Pelos vistos, os emissários mencionados por Tomás dos Santos eram autênticos espiões.
Este telegrama acabou por vir a público em dois jornais de circulação nacional, com a consequente difamação do visado. Imagina-se a surpresa e desagrado que isso terá provocado entre os católicos da Póvoa.
O Poveiro escandalizou-se com o telegrama do Administrador; o "sensatíssimo discurso" que proferira ao tomar conta do cargo não fazia prever um insulto tão descarado:

Parece-nos que Sua Ex.cia não foi feliz, o que deveras sentimos, em ferir uma nota tão forte, que tanto desagradou pela crueldade, que, mesmo que tarduzisse uma verdade, era, porque tinha de o ser, desagradável e comburente para o infeliz. Sua Ex.cia perdoe-nos que lhe digamos com o maior respeito, mas também com a rudeza de marinheiro: os poveiros foram, são e hão-de ser generosos com os seus hóspedes, mas magoam-se quando esses não lhes sabem corresponder dignamente. [...]
Maluco! Que triste, e nós o sentimos deveras que assim o denomine um hóspede na nossa terra há dois anos, que certamente nunca se afastouu do pároco desta vila, com quem se tem dado, sinal de que nunca receou qualquer manifestação que ele desse de alienado.

O Arcipreste mencionado no telegrama era o culto e sereno padre poeta António Martins de Faria.
Uma curiosidade: na véspera do envio do telegrama, O Comércio, certamente a partir de informação saída no jornal republicano portuense Pátria, anunciara a suspensão d'O Poveiro. De facto, os  acontecimentos que a seguir vão ter lugar acabarão por atingir uma clara ressonância nacional.

Tomás dos Santos podia contar com o apoio dos republicanos poveiros e do regime, de Afonso Costa; o Prior tinha por si quase a totalidade das gentes da Póvoa, à excepção naturalmente dos poucos fanáticos da República (e dos seus jornais).
No final daquele mês, em 29 de Março, o administrador há-de ter rejubilado por momentos, quando telegrafou para o Governo Civil o seguinte:

Fugiu Prior desta vila Manuel Martins Gonçalves da Silva, contra quem foi lavrado auto de investigação por incitamento povo a revolta. Povo republicano deste concelho representado nesta administração por uma grande comissão pede providências imediatas a fim de evitar conflitos.

Enganara-se, e muito. O Prior da Póvoa não fugira: fora ao Porto falar com o Governador Civil e expor-lhe o seu caso.
De facto a luta vinha a aquecer, por várias razões, e recaía sobre o Prior uma ameaça real de detenção, já que ele não acatava pacatamente os desmandos da nascente República.
Ao Governador Civil terá proposto que, se o quisesse prender, o fizesse ali, no Porto, mas nunca na Póvoa. Mas foi tão convincente no esclarecimento das suas atitudes que trouxe de lá um salvo-conduto, com data de 30 de Março, que o isentava, ao menos em boa parte, da jurisdição do Administrador. Nele se lia:

Enquanto por mim ou superiormente não for determinado o contrário, o Sr. Abade tem o direito de regressar à sua paróquia e exercer nela as suas funções, sem impedimento algum.

Grande humilhação para Tomás dos Santos!
Publicado n’O Poveiro em 8 de Abril, o documento há-de ter gelado as hostes republicanas.
E O Comércio fizera, uma semana antes (30 de Março), um ataque cruel ao Prior. Intitulava-se a coluna: “O Prior da Póvoa” e tinha como subtítulo “Basta! Basta!”; depois corria esta prosa indignada, insultuosa, ameaçadora e despropositada:

Não podemos, como republicanos, como patriotas, permitir que o Prior da Póvoa continue impunemente a difamar a República, a fomentar ódios, a sublevar o povo crente e ignorante da nossa terra.
Basta! Basta!
É necessário providências enérgicas; é urgente que as autoridades da nossa terra ponham cobro a este estado de coisas que não pode continuar por mais tempo.
Todos os domingos, a pretexto de qualquer coisa que nada tem com o culto, o Prior da Póvoa bota fala ao povo, no propósito único de alarmar a agente crédula, dizendo mentiras e falsidades, com uma hipocrisia de que só ele é capaz.


O algoz medieval Afonso Costa acaba de degolar o Papa e os Jesuítas.

No último domingo, então, o sermão tornou-se escandaloso, único.
Custa mesmo a crer que o arrojo de tal criatura chegasse a tanto!
Hipocritamente lacrimoso, com refinadíssima impostura, o Prior da Póvoa fartou-se de dizer sandices, de difamar a República.
E fê-lo com tal arte – pois o prior é um sublime actor – que conseguiu comover o auditório, composto em grande maioria da nossa pobre gente do mar que saiu do templo aterrorizada pelo que ouviu!
Não; isto não pode ser!
É necessário; é urgente que o Prior da Póvoa seja expulso para sossego de todos. E há-de sê-lo, estamos disso certos, a fim de evitar actos violentos em perspectiva e que são imprescindíveis quando as providências se demoram e não satisfazem os brios dos patriotas.
Fica dito o bastante para sermos compreendidos.
Basta!

Na lógica destes escritos está que a tudo a que a tirânica República (não havia coisa semelhante à face da Terra) dissesse só havia que obedecer sem discussão. E repare-se que a catilinária não tem por si nenhuma afirmação concreta do Prior, muito menos nenhum facto claramente comprometedor.
Como há-de ter sido doloroso resistir meses a fio a tão continuada prepotência!

Em 20 de Abril, sai a Lei da Separação. Terrível que ela era! Mas não surpreendia de todo: os visados já se vinham habituando a semelhantes desmandos. Já se proibira levar o Viático aos doentes (ao menos como dantes), a “cruz alçada” e sacerdotes de sobrepeliz nos enterros, dificultara-se o toque dos sinos e havia uma comissão paroquial que atrapalhava a vida paroquial.

3. O atentado contra a casa do Administrador


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No dia um de Junho de 1911, da parte da tarde, Tomás dos Santos comunicou em telegrama ao Governador Civil:

Casa Administrador alvejada esta noite com tiros e pedras, vidraças partidas, portas furadas. Rogo se digne enviar urgentíssimo dois polícias judiciários e oito civis. O Adm.dor Tomás dos Santos.

A imprensa mais esquentada do republicanismo poveiro vai-se exaltar e apontar logo o dedo ao Prior e ao seu jornal. O Intransigente, A Propaganda e o próprio Comércio como que rivalizam entre si a ver quem é mais severo na condenação do facto, mas sempre com a esperança de atingir o pároco da Póvoa.
A edição de 4 de Junho d’A Propaganda, num artigo bem destacado, intitulado “Sicários e conspiradores”, gritava assim o seu escândalo:

O que acaba de se passar na vila da Póvoa de Varzim é grave, gravíssimo, e a não serem tomadas providências, e rápidas, o caso é muito sério e teremos de optar por um de dois caminhos muito opostos: ou andar de bacamarte aperrado e atirar a matar sobre a quadrilha de conspiradores ou abandonar esta terra e fugir por falta de segurança.
Pela uma hora da noite de quarta para quinta-feira uma quadrilha de malfeitores-conspiradores assaltou a residência do Sr. Administrador deste concelho e, aos gritos subversivos contra as instituições, partiram-lhe três vidros das janelas, à pedrada, e despejaram cinco tiros de revólver, que foram assim empregados: uma bala furou uma telha do beiral, outra furou um vidro e a janela, outra bala cravou-se na parede e duas balas furaram a porta da rua. No portão do jardim colaram dois papéis, sendo um escrito a tinta vermelha onde, pouco mais ou menos, se lia o seguinte: se tentas saber quem foram os autores disto, o teu sangue correrá pelas ruas da Póvoa; já lavrou a tua sentença de morte o Comité Monárquico da Póvoa.
E assim puseram em sobressalto a família do representante do Ministério do Interior e assim desrespeitaram a primeira autoridade desta terra.
Isto é grave, gravíssimo, e é preciso saber-se, por força que não por jeito, quem é a escumalha de traidores que tão infamissimamente saiu à estacada na mais desaforada e ultrajante provocação.
É preciso saber-se quem foram os autores de tão nefando atentado; e, logo que apareçam, que sobre eles se descarregue o gládio da justiça, inexorável, para cortar cerce o mal que alastra, essa cáfila, talvez do conhecimento dos provocadores que semanalmente e no pasquim do Prior da Póvoa atacam por sistema, por malvadez, por espírito de seita negra, os caracteres impolutos, corações diamantinos, almas democratas de patriotas, amigos da República, amantes da Paz e do Progresso.
É preciso que a horda capitaneada pelo Prior da Póvoa seja chamada a contas, e mais é preciso que com o rótulo da República acabe o pasquim que o Prior da Póvoa pôs ao serviço de reaccionários, de monárquicos perigosos, de satânicos jesuítas que dizem tudo quanto maquinam, que bolsam todas as invectivas, que anavalham todas as reputações, numa peçonha de saramanganta, numa campanha de toupeira, numa ingratidão de jibóia entorpecida!
É preciso que se apurem os criminosos e se lhes dê o castigo devido, a eles a e aos cúmplices, que os deve haver.
Para trás, bando negro!
Para trás, inimigo da sociedade, Casério maldito, Revachol danado, Torquemada execrando, quem quer que sejas tu, sicário, alma patibular, desprezo dos homens!
Jogaram as últimas; é preciso que se exija unha por unha e dente por dente.
A escumalha da Póvoa, essa quadrilha de sicários e de selvagens que praticou o assalto tem mandante, tem guarda-costas, tem alguém interessado no abominável feito.

Neste escrito de ódio está o anticlericalismo em estado mais ou menos puro. Casério e Revachol foram dois anarquistas guilhotinados na França em finais do século XIX. A quem propósito vinham aqui eles?
Torquemada foi um conhecido e terrível inquisidor espanhol. Que vem ele aqui fazer?
Os republicanos seriam por norma “caracteres impolutos, corações diamantinos” ou por excepção?
Que era “horda capitaneada pelo Prior da Póvoa”?
Os piores inimigos República eram os seus insensatos amigos.

Um dos papéis colados "no portão do jardim" exprimia-se deste modo:

Esbirros!
Considera a manifestação d'esta noite que foi por nós prepositadamente disposta para que não corresse o teu sangue, como um protesto e um aviso. Protesto contra as revoltantes prepotencias que a abominável republica de que és representante tem commettido sobre o povo d'este concelho. D'aviso para que durante os poucos dias em que ainda possas ser auctoridade não uses descer á pratica de violências que tornem impossível a conservação da tua vida e da dos teus. O Comité Monarchico Revolucionário do concelho da Povoa tomou todas as precauções para que ninguém possa descobrir os executores d'esta sentença. Não investigues que nada consegues. Ai! de ti se tentares vexar quem quer que seja!
Morra a Republica! Viva a Monarchia!

Que isto era um primeiro desafio, e até ousado, ao novo establishment republicano, não havia dúvida. Mas em termos de indícios sobre os seus autores não levava e não levou a lado nenhum.
De resto, se o atentado ocorreu à uma da manhã e não fez o visado sequer levantar-se da cama – e ele tinha família – e só à tarde enviou o telegrama, é porque não se apoquentou muito.
Como, por toda a evidência da investigação levada a cabo, o desacato não foi provocado por gente ligada a O Poveiro, a conclusão parece ser a de que foi gente republicana que queria incriminar o Prior. Até a violência com que falaram parece denunciar perfídia.

 Pormenor da primeira página d'O Poveiro de 1 de Julho.

Mas se o ataque da imprensa ao Prior foi brutal, irresponsável e perpassado de elaboradas flores de estilo oratório, a derrota vai ser proporcionalmente estrondosa.
O Poveiro começou por responder às acusações em tom comedido, mas, depois de passada a borrasca, usou um tom muito duro:  homens da sua redacção tinham sido humilhados, estiveram presos e incomunicáveis cinco dias, por isso exigia-se agora uma desafronta.
O feitiço voltava-se contra o feiticeiro, contra Tomás dos Santos, contra a sua fúria lupina insensata, contra A Propaganda, contra O Comércio, contra O Intransigente. Eles meteram a viola ao saco e emudeceram.

No fim do mês, porém, o cargo de Administrador passava para Santos Graça. Como o Liceu ameaçava fechar por dificuldades económicas, o professor provisório Tomas dos Santos foi despedido.
Não deixava boa memória o professor-administrador.

4. Um padre que não combateu "o bom combate”


Se tivesse vivido nas décadas finais do Estado Novo, o Cónego Alberto Ricca, professor do Liceu, seria provavelmente avaliado como um padre “progressista”. Mas não foi progressista coisa nenhuma, foi só um cónego que se pôs do lado errado, do do inimigo, como tinha acontecido, ao tempo do Liberalismo, por exemplo, com o Padre Domingos da Soledade Silos, que foi pároco de Vila do Conde e fez depois o registo de baptismo de Eça de Queirós.
Ele era um elemento altamente perturbador neste confronto em que se defendida a Igreja face aos desmandos anticlericais da República. Uma vez o Intransigente colocou o Cónego Ricca como o terceiro republicano da Póvoa, após o Dr. José Pedro de Sousa Campos e António dos Santos Graça. E era verdade.
Por duas vezes, que saibamos, o Cónego Ricca enviou a Afonso Costa telegramas de apoio às suas medidas legislativas. Ao menos numa delas (na edição de 20 de Maio) O Poveiro denunciou publicamente a incongruência.
Professor efectivo do 1º grupo, nomeado em 12-6-1908, o Cónego Ricca foi eleito seu reitor em 21-10-1910 e tomou posse em 1-11-1910. Deixou de prestar serviço em 1-10-1912.
Veja-se como O Comércio noticiou e comentou a eleição do Cónego Ricca para reitor:

 Edital do Cónego Alberto Ricca como Reitor do Liceu

Reuniram hoje, de acordo com o último decreto do Governo Provisório da República, os professores do nosso liceu para procederem à eleição do Reitor.
Ficou eleito o professor Sr. Cónego Alberto Ricca.
Convém recordar neste momento, para mais para que mais patente fique a nossa simpatia pelo novo director do nosso mais importante estabelecimento de ensino, que foi o Sr. Cónego Ricca um dos poucos que ousou, na reunião do clero para a mensagem do Sr. Arcebispo de Braga, declarar que não assinava aquele documento por achar justo o castigo imposto pelo governo de então, lamentando, apenas, a suavidade da censura.
Felicitamos vivamente S. Ex.cia e apresentamos-lhe os nossos cumprimentos.

Em 24 de Julho, o Cónego Ricca perdeu completamente as estribeiras, agredindo publicamente o Prior. Este contou o sucedido n’O Poveiro:

Pelas três horas da tarde de hoje, segunda-feira última, achando-me na Rua do Almada, no extremo norte da casa do Sr. Matias Fiúza, a conversar com os Srs. Joaquim Costa e Silva, professor oficial de Amorim, e Eduardo da Silva Gomes, proprietário na Rua da Junqueira, fui surpreendido pelo Sr. Cónego Ricca, Reitor do Liceu desta vila, que, em atitude agressiva, me exigiu explicações pelo que se tem escrito n’O Poveiro a seu respeito.
Respondi-lhe, muito naturalmente e sem a menor exaltação, que nada tinha escrito.
Retorquiu: se eu dava a minha palavra de honra em como nada tinha escrito.
Respondi, outra vez, que nada tinha escrito a tal respeito. A resposta do Sr. Cónego foi atirar uma bengalada à cabeça, que, felizmente, nada me magoou e apenas me amachucou um pouco o chapéu de coco.
A bengala que me tocou o chapéu quebrou nessa ocasião, se é que não vinha já quebrada; porque efectivamente a amachucadela do chapéu ou denota muita força do agente ou muita fraqueza da bengala. Por isso a minha defesa correspondeu ao ataque simples e fraco, se bem que assazmente cobarde.
Devo confessar que nenhuma inimizade tenho ao Sr. Cónego Ricca; mas de nenhum modo posso concordar com certos actos públicos e, sobretudo, com a sua manifesta rebeldia em não obedecer às autoridades eclesiásticas, dispensando-se de obter do meu Ex.mo e Rev.mo Prelado a licença para celebrar.
É claro que nem sempre tenho tido conhecimento de tudo quanto se escreve n’O Poveiro, mas o que deixo dito não podia impedi-lo sem contrariar o meu próprio sentir.
O Sr. Cónego Ricca, talvez por um prurido de ascender a altas dignidades, tem, por diversos escritos, criado uma atmosfera bastante prejudicial para si, no meio deste bom povo.
O Poveiro, portanto, fazendo-se eco de boatos correntes e sobejamente públicos, não tem ultrapassado os seus deveres jornalísticos e, quando os ultrapassasse, aí estão os tribunais para julgar esses pleitos.
Não tomo a responsabilidade do que não escrevo, mas parece-me que o Sr. Cónego Ricca tem dado causa ao que tem dito O Poveiro.
“Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele”.
Um jornalista, como é o Sr. Cónego, com gestos leoninos que tem, devia compreender que é no mesmo campo que se terçam armas. […]

Esta ofensa pública e publicada desacreditava definitivamente o Cónego. O Prior saía-se desta “guerra acintosa” triplamente vitorioso: arrumava o Tomás dos Santos, o Cónego Ricca e deixava muito mal parada toda a imprensa adversa.

5. No inquérito sobre o Complô Monárquico


Embora Tomás dos Santos tenha deixado de prestar serviço no Liceu poveiro no final do ano lectivo de 1910-1911, ainda se encontrava na Póvoa em princípios de Outubro, quando foi aberto um inquérito sobre a eventual participação de gente da vila no complô monárquico recentemente abortado no Porto.
A ala mais radical do republicanismo fora arredada da política e era agora Administrador António dos Santos Graça; mas vão ser mesmo os radicais republicanos os depoentes do inquérito. As suas declarações têm dois alvos principais: o Prior, os seus colaboradores e o seu jornal, por um lado, e o novo Administrador, por outro. As do Tomás dos Santos não são excepção.
Começa por afirmar que “tem a certeza moral de haver na Póvoa de Varzim elementos que surdamente e com tenacidade combatem a República; que esses elementos, à frente dos quais não podem deixar de estar o Prior, o Subdelegado de Saúde, médico Caetano d'Oliveira, Josué Trocado e sogro, farmacêutico Vieira e Padres Cascão e Amorim, contam com o apoio incondicional do clero e de quase toda a população do concelho, que sofre da terrível educação jesuítica”.
Esses elementos têm "por órgão o jornal O Poveiro onde de vez em quando se aconselha o povo à desobediência, mesmo à revolta, e em todos os números se acirra o ódio do povo aos republicanos mais em evidência”. “O mesmo jornal afirma o seu ódio à República achincalhando as suas leis e malquistando com o povo fanatizado os homens mais eminentes da Republica tais como Afonso Costa”.
“Que a prova da existência do tal Comité Monárquico Revolucionário está no atentado feito à sua casa quando administrador do concelho num aviso que os mal feitores deixaram afixado nessa mesma noite […]”
A partir  daqui a deposição tem como alvo o novo Administrador.

As afirmações mais curiosas de Tomás dos Santos são talvez estas: os tais elementos que combatem a República “contam com o apoio incondicional do clero e de quase toda a população do concelho, que sofre da terrível educação jesuítica”. Tomadas à letra, significam que quase ninguém já queria a República, o que devia ser verdade - mas a culpa era dele, Tomás dos Santos, e de outros como ele.
Também é curioso que os jesuítas continuem ensombrar-lhe a mente. Mas não se tratava de jesuítas, não, ele e os seus pares é que viam mal. Os jesuítas estavam longe, mas as pessoas permaneciam fiéis à Igreja, e isso é que ele não tolerava. Tomás dos Santos também parece não ler bem O Poveiro. O Prior nunca negara a sua adesão à República, recusara-se foi a aceitar as suas posições discriminatórias, atentatórias dos mais elementares direitos à expressão livre. A República não era dona da verdade.

O Zefinha e a Zefinha

O Poveiro às vezes também era um pouco malicioso. Por fins de Maio publicou uma pequena notícia intitulada “Que graça!...”; dizia assim:

Há dias apareceu aí na Póvoa uma linda menina, que dá pelo nome a Zefinha, toda vestida de branco, que oferecia flores a todos os amigos para ganhar simpatias.
- Quer uma flor? - dizia a simpática criança. – É muito linda e muito odorífera, saiu agora mesmo do quintal das Doroteias, fui eu que as colhi.
E os amigos, encantados com a generosidade da menina, colocavam a flor na lapela e a traziam ufanos para dizer aos patrícios:
“Olha a flor da Zefinha!”
Que graça!...

Isto de flores e de Zefinha tinha a ver com Tomás dos Santos, de certeza…

O cão de Tomás dos Santos

Os inimigos do Prior invejavam-lhe o cavalo, que ele chamava Marquês. Tendo talvez isso em conta, um dia O Poveiro falou dum animal de Tomás dos Santos, do seu cão: ele andava livre na Praça do Almada e rasgou as calças a um trabalhador. O jornal interpelou o Administrador e terminou assim a notícia:

Ah, cão, se não precisasse de ti para me guardares as flores e a pele, eu te faria pagar bem caro os 2#000 réis de multa! Mas perdoa-me, não vás tu fazer-me o que fizeste ao pobre trabalhador e eu ficar sem o meu fato cinzento!...

Lá vieram de novo as flores.

A perspectiva do Mons. Manuel Amorim

O notável historiador poveiro Mons. Manuel Amorim escreveu sobre Sebastião Tomas dos Santos estas duras palavras:

Tratava-se dum indivíduo de fora da terra, colocado como professor do liceu, que instalou na Administração as práticas da delação infiltrando espiões nas igrejas e estabelecimentos de ensino particular. Por este sistema levou o Prior Gonçalves da Silva a homiziar-se e os colégios Povoense e Moderno a fecharem as portas. O povo odiava o “Zefinha”, como era conhecido, e um dia correu-o da Póvoa a tiro. Em Julho de 1911, o cargo de Administrador é entregue a Santos Graça e a paz regressou à Vila.

OS VENDILHÕES DO TEMPLO

Excertos do discurso proferido por Tomás dos Santos, professor do Liceu Nacional da Póvoa de Varzim, em 1911, na sessão que se realizou no Centro Operário Republicano Radical Dr. Afonso Costa, comemorando os heróis de 5 de Outubro.

Meus Senhores:

Faz hoje precisamente um ano que o povo de Lisboa por um sublime esforço de patriotismo, num altivo arranco de heroicidade e de revolta contra a nefasta monarquia dos adiantamentos ilegais, depôs esse regímen de corrupção em que a vileza era motivo de preferências e a virtude azo de perseguições.
Esse esforço soberanamente belo, o acendrado espírito de civismo que então se manifestou da parte do povo mereceram o aplauso do país inteiro, mereceram o respeito e a admiração das nações mais adiantadas em civilização e progresso.
De norte a sul, em Portugal e colónias, a República foi recebida de braços abertos com verdadeiro entusiasmo[1].
Da monarquia nem um só defensor apareceu da parte do povo!
A república foi nessa ocasião um talismã, uma nova radiação que, penetrando o espesso véu que velava as consciências, mostrou serem republicanos a maior parte dos homens sem mácula, que a monarquia julgava seus leais e dedicados defensores.
A gloriosa implantação da República foi a pedra do toque das convicções políticas, foi o Sol nascente para que se voltaram todas as atenções, e vede que era tal a febre de transformismo, era tal a febre de aderir, era tal a febre de continuar adentro da República a adiantada obra de decomposição moral que até o padre Matos e o traidor Couceiro largara a coroa, o hissope e a cruz para, empunhando o barrete frígio, confraternizarem com o povo.
Conta-se mesmo, muito em segredo, que até o reizinho, refeito do susto que apanhou ao fugir da sua gaiola dourada, escreveu logo a Gaby Deslys convidando-a também a …… aderir.
Andava o beato rei Manolo carregado de rosários, coberto de imagens de santinhos à semelhança do fanático Luís XI de França, mas, ó fatalidade, nem Deus nem os santos milagreiros o impediram de ser destronizado.
O clero é, porém, o eterno fomentador da discórdia e, a julgar pela agitação em que hoje se encontra, parece que o derruir dum trono é o agonizar duma religião.
Ora se o Deus das beatas, se o Deus de que o papa é o infalível representante é infinitamente poderoso, se por um simples pensamento, reparem bem, condena aos maiores tormentos num fogo eterno, e se esse Deus, sendo omnipotente e omnisciente, se tem até hoje conservado mudo e quedo às súplicas dos paivantes e canastras, não será porque também ele tenha aderido?
Dizei, meus Senhores, a esses homens de saia e cabeça rapada que não mais conspirem – que lhes falta o apoio divino[2].
Que o fogo da Inquisição se apagou para não mais se acender, como ainda há bem pouco tempo queriam um degenerado bispo português e a D. Amélia. – Esse fogo apagou-se, é certo, mas inundado pelas lágrimas de tantos inocentes que só o recordar faz estremecer os corações mais empedernidos!
Os seus patíbulos apodreceram ensopados em sangue de centenas de milhares de vítimas!
Dizei-lhes ainda que soou a hora da Liberdade e que o povo enfim é livre!
As algemas da religião não mais pesarão sobre as nossas consciências.
Não mais haverá procissões de mulheres nuas, nem o povo consentirá que a confessionário continue a ser alcova de prostituição!
Não continuarão a roubar o património dos nossos filhos nem hão-de repetir os tormentos que nos fizeram padecer em nome de Deus, que, como eles dizem, é de infinita bondade, mas pune as suas criaturas com torturas infinitas em crueldade e duração!
Quanto aos jesuítas - essa seita maldita que em todos os tempos fez e aconselhou o roubo, a violação das donzelas, o regicídio e até o assassinato do próprio pai, que como cães danados foram enxotados dos próprios países católicos, esses, de comum acordo com os outros, preparam os alfanges com que vos querem cortar a cabeça.
Acautelai-vos dessa raça de víboras que a ninguém perdoa.
O jesuíta é o lodo da humanidade, é o verdadeiro Anticristo, é o próprio Diabo disfarçado[3].
Essa seita maldita da Companhia de Jesus, expulsa da Espanha por Carlos III na noite de 3 de Março de 1767, foi recebida a tiros pelos soldados do papa quando pretendiam desembarcar em Civitavecchia, alegando que o papa não podia sustentar tanta gente.
Corridos de todos os pontos da terra, só passados meses puderam desembarcar na Córsega, donde pouco depois foram expulsos pela França ainda então monárquica.
Tais foram os crimes desta seita que o papa Clemente XIV viu-se obrigado a abolir a Ordem da Companhia de Jesus em 11 de Julho de 1773. Os jesuítas vingaram-se, porém, envenenando-o em Setembro doa no seguinte, e Roma inteira gritou bem alto: clemente XIV bebeu a água tofana[4].
A água tofana era o veneno dos Bórgias.
As congregações religiosas, que foram sempre os maiores factores de devassidão, não voltarão a Portugal sem que o povo, que é hoje soberano, faça justiça por suas mãos.
A Igreja, que foi sempre a inimiga declarada da Ordem, da Liberdade e do Progresso, ei-la separada do Estado, lamentando não poder assar toda a gente[5].
Eu vou ler-vos alguns dos seus crimes, para que não digam que eu calunio.
Começo pelos crimes da Inquisição, que ninguém, contesta, limitando-me a Portugal e Espanha, e daí avaliareis o que foi nos outros países. 
*
*        *
 […]

Basta, meus Senhores, estou horrorizado!
E dizem eles, os padres, que quem desacredita a Religião Católica somos nós, depois de tantos crimes, tantas infâmias em nome de Deus!
Eu sei que alguns dos Senhores são religiosos: notai que eu não pretendo atacar as vossas crenças nem perturbar as vossas consciências.
O Cristianismo não é o Catolicismo[6].
Vos seguis o Cristo, que disse “amai o próximo como a vós mesmos”. Eles desconhecem o amor do próximo, amam o Deus de Roma, vingativo, que só perdoa por dinheiro!
A República, sendo um regímen de paz e amor, não podia aliar-se a uma Igreja cheia de crimes e de perversidade.
Meus Senhores! Os revoltosos de 5 de Outubro fizeram uma grande obra, mas sem as sábias leis de Afonso Costa, ela não seria completa.
Recordando tantos crimes, tanta maldade humana acobertada pela capa de um Deus incompreensível, eu não sei que mais admirar: - se a definitiva[7] expulsão dos jesuítas e das Congregações religiosas, se a acertada Lei da Separação do Estado das Igrejas!
Viva Afonso Costa!
Viva o Partido Republicano Democrático!
Viva a república!
Viva a Pátria!

Transcrito do jornal poveiro A Propaganda, de 11 de Outubro de 1911.


[1] Na Póvoa não foi bem assim!
[2] Não era nada assim. Então a Igreja não teve por si as aparições de Fátima?
[3] Onde terá Tomás dos Santos aprendido estas tiradas blasfemas e mentirosas?
[4] Clemente XIV morreu de morte natural:  “Ma che il decesso fosse dovuto solo all'età e a cause naturali lo confermarono sia il medico personale che il confessore, che dissiparono le voci di una morte per avvelenamento”.
http://it.wikipedia.org/wiki/Papa_Clemente_XIV
Este Papa suprimiu os Jesuítas, mas por razões políticas, não morais ou teológicas (e não suprimiu toda a Ordem).
[5] O que havia de lembrar a este professor provisório!
[6]  A crítica ao Catolicismo empurra-o para o Protestantismo.
[7]  Definitiva, no desejo do legislador e de Tomás dos Santos.