sábado, 27 de março de 2010

O ADMINISTRADOR TOMÁS DOS SANTOS E O PRIOR DA PÓVOA DE VARZIM

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QUATRO MESES DE UM DURO E DESIGUAL CONFRONTO

1. Antes do “início das hostilidades”

A atitude prepotente e retrógrada que a República usou na sua relação com a Igreja Católica foi na Póvoa ocasião para uma resistência verdadeiramente heróica.
O Prior aceitava firmemente o seu compromisso com a Igreja (“dê o que der”), o Administrador estava comprometido com a República. Como a República pretendia destruir a Igreja, o entendimento era impossível.
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Quem era Tomás dos Santos?

O professor Sebastião Tomás dos Santos, a quem na Póvoa chamavam o Zefinha, nasceu em 1875 ou 1876 no lugar de Laceiras, em Cabanas, Carregal do Sal. Pelos vistos teve um começo muito humilde, como pastor. Terá então revelado uma inclinação muito forte para o estudo: se numa das mãos lhe viam a vara de pastor, na outra empunhava um livro. Estudou em Lisboa, sendo já na altura um defensor da república. Veio para o Liceu da Póvoa em 1908, para ensinar Matemática, como professor provisório, com 34 anos e sem dúvida já casado. Viveu no arrabalde sul da Póvoa, na “Vila de S. Brás”. Era conhecido o seu gosto por flores, que cultivava no jardim da casa.
Em 27 de Fevereiro de 1911, tornou-se administrador republicano do concelho da Póvoa de Varzim, em substituição de José Pedro de Sousa Campos. No final desse ano lectivo, foi-se embora do liceu e certamente também da Póvoa. Ao menos durante parte do tempo da sua administração, acumulava, com o ensino, ainda a responsabilidade do registo civil.Edital do Administrador Tomás dos Santos. Repare-se no jeito pomposo como o documento começa.

Tomás dos Santos devia pertencer àquele grupo de intelectuais ditos liberais que o Mons. Manuel Amorim uma vez assinala, ligados ao Café Chinês e ao Centro Republicano. Aquando da proclamação da República na Póvoa de Varzim, dia 7 de Outubro de 1910, não faltou à chamada para apor a sua assinatura. Era um homem novo, um lutador republicano, com preparação académica pouco comum.

Quase nas vésperas da tomada de posse, Tomás dos Santos teve uma pega com um colega, que o Administrador precedente relata, aproveitando para exaltar a pessoa de Tomás dos Santos.

Quais as competências dum administrador de concelho?
Teoricamente, ele era a primeira autoridade concelhia, mesmo acima do presidente da câmara. Como representante do Governo, intervinha em áreas de economia, de inspecção e vigilância, de polícia geral e de registo civil. Para o presente caso, não se justifica descer a pormenores.

Quem era o Prior da Póvoa?

Chamava-se Manuel Martins Gonçalves da Silva (Beiriz, Póvoa de Varzim, 27.02.1864 - Póvoa de Varzim, 1914) e coube-lhe a muito difícil tarefa de fazer na sua paróquia a transição entre o regime monárquico e o republicano. Não é possível imaginar hoje como isso foi custoso e os documentos deixarão porventura muita coisa por esclarecer.
Em 1910, o Prior da Matriz era o pároco de toda a vila, pois ainda só havia uma paróquia. Por feitio, ele era um lutador que se não acobardava perante ameaças. Por isso, apesar de ter assinado a proclamação da República em 7/10/1911 e de a ela ter francamente aderido desde o princípio, ergueu depois alto e bom som a sua voz, mesmo tendo de enfrentar a administração do concelho e o tribunal. Por fim, o Ministro da Justiça, por decreto, passando por cima das instâncias judiciais, em finais de Março de 1912, condenou-o a exílio.
O Prior da Póvoa de Varzim, P.e Manuel Gonçalves da Silva

A República foi proclamada em Lisboa no dia 5, quarta-feira; na Póvoa foi-o na sexta, dia 7. No princípio da outra semana, os jornais poveiros – havia seis – não perderam a oportunidade de marcar a adesão ao novo regime; nalguns casos com um exagero que hoje só podemos considerar ridículo. Havia também um jornal afecto ao Prior, O Poveiro, de que saíram dois números nessa mesma semana, um na terça, dia 11, e outro no sábado, dia 15.
O editorial do dia 11, a três colunas, começa assim:

Muitos ainda julgam um sonho a proclamação da república em Portugal.
Todavia a realidade aí está evidente.
Consumado o facto, só resta a todo o bom patriota acatar as novas instituições, porque uma guerra civil seria a perda irremediável das colónias e talvez a da nossa autonomia.
O momento é grave e decisivo para a vida da Pátria.
Se todos aceitarmos o novo regime, e ele inaugurar uma administração austera, isenta dos defeitos e erros condenados na monarquia deposta, ainda é possível a regeneração nacional.
Se a república governar bem – Viva a República!
Se, porém, a mudança de regime só servir para exercer retaliações, e continuar o desleixo pelo interesse geral: se, numa palavra, a uns corruptos se substituírem outros corruptos, então o pobre Portugal exalará o seu último alento, e seremos em breve os polacos do Ocidente.
Neste caso, a nós, os que temos ainda alma para amar este glorioso torrão onde nascemos, só nos resta exclamar como o poeta Pátria, ao menos, juntos morremos, e morrer com ela.

A adesão ao novo regime é ainda mais entusiasta, mas sempre realista, sem retórica despropositada e sem ponta de saudosismo monárquico, noutro editorial, mais extenso, sob o título de “A nossa atitude”, saído no dia 15. Por isso, o Prior terá no futuro toda a legitimidade para se opor aos continuados desmandos republicanos, e o seu exílio será assim ainda mais nitidamente injusto.

No dia em que os outros jornais da Póvoa anunciavam com algum alarido a tomada de posse de Tomás dos Santos, O Poveiro prestou uma vasta homenagem ao pároco local. Um tal Aníbal Passos escreveu então:

Efectivamente o Prior da Póvoa é alguém. Como todos aqueles que marcam uma personalidade, tem sido amado e odiado, tem sido objecto das dedicações mais acendradas e das calúnias mais grosseiras. Temperamento de lutador, não há perigos que o amedrontem nem inimigos que o façam vacilar. Doce com os fracos, a quem ampara, e indomável perante os poderosos, que nunca o apavoram, realiza admiravelmente a formosa imagem bíblica de mel fabricado na fauce despida de um leão, pois que, à brandura frágil duma criança junta as energias dum forte física e moralmente.

Os dois campos e as suas forças

O Prior da Póvoa não podia esperar muito da imprensa local - afora O Poveiro. Quando muito, contaria com a compreensão do Estrela Povoense. No campo adversário, estavam o verrinoso O Intransigente, no seu estilo de pasquim, A Propaganda, que não ficava muito atrás, e O Comércio da Póvoa de Varzim, no geral mais contido.
Esta diferença numérica era porém contrabalançada, ao menos em parte, pela qualidade d'O Poveiro, que abordava destemidamente, com segurança, sem atitudes preconceituosas, as posições da Igreja e os assuntos de interesse local mais variados.
Por vezes os colunistas adversos ao Prior alteavam o estilo, querendo dar-lhe uma solenidade pouco habitual, ainda que no tom de diatribe; assinalavam essa solenidade com destaques tipográficos especiais. Era o combate político a recorrer às armas duma retórica empolada.
Havia ainda a luta económica, pois a competição entre os seis semanários para captar o público da pequena vila deveria ser enorme.

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