sábado, 27 de março de 2010

5. No inquérito sobre o Complô Monárquico


Embora Tomás dos Santos tenha deixado de prestar serviço no Liceu poveiro no final do ano lectivo de 1910-1911, ainda se encontrava na Póvoa em princípios de Outubro, quando foi aberto um inquérito sobre a eventual participação de gente da vila no complô monárquico recentemente abortado no Porto.
A ala mais radical do republicanismo fora arredada da política e era agora Administrador António dos Santos Graça; mas vão ser mesmo os radicais republicanos os depoentes do inquérito. As suas declarações têm dois alvos principais: o Prior, os seus colaboradores e o seu jornal, por um lado, e o novo Administrador, por outro. As do Tomás dos Santos não são excepção.
Começa por afirmar que “tem a certeza moral de haver na Póvoa de Varzim elementos que surdamente e com tenacidade combatem a República; que esses elementos, à frente dos quais não podem deixar de estar o Prior, o Subdelegado de Saúde, médico Caetano d'Oliveira, Josué Trocado e sogro, farmacêutico Vieira e Padres Cascão e Amorim, contam com o apoio incondicional do clero e de quase toda a população do concelho, que sofre da terrível educação jesuítica”.
Esses elementos têm "por órgão o jornal O Poveiro onde de vez em quando se aconselha o povo à desobediência, mesmo à revolta, e em todos os números se acirra o ódio do povo aos republicanos mais em evidência”. “O mesmo jornal afirma o seu ódio à República achincalhando as suas leis e malquistando com o povo fanatizado os homens mais eminentes da Republica tais como Afonso Costa”.
“Que a prova da existência do tal Comité Monárquico Revolucionário está no atentado feito à sua casa quando administrador do concelho num aviso que os mal feitores deixaram afixado nessa mesma noite […]”
A partir  daqui a deposição tem como alvo o novo Administrador.

As afirmações mais curiosas de Tomás dos Santos são talvez estas: os tais elementos que combatem a República “contam com o apoio incondicional do clero e de quase toda a população do concelho, que sofre da terrível educação jesuítica”. Tomadas à letra, significam que quase ninguém já queria a República, o que devia ser verdade - mas a culpa era dele, Tomás dos Santos, e de outros como ele.
Também é curioso que os jesuítas continuem ensombrar-lhe a mente. Mas não se tratava de jesuítas, não, ele e os seus pares é que viam mal. Os jesuítas estavam longe, mas as pessoas permaneciam fiéis à Igreja, e isso é que ele não tolerava. Tomás dos Santos também parece não ler bem O Poveiro. O Prior nunca negara a sua adesão à República, recusara-se foi a aceitar as suas posições discriminatórias, atentatórias dos mais elementares direitos à expressão livre. A República não era dona da verdade.

O Zefinha e a Zefinha

O Poveiro às vezes também era um pouco malicioso. Por fins de Maio publicou uma pequena notícia intitulada “Que graça!...”; dizia assim:

Há dias apareceu aí na Póvoa uma linda menina, que dá pelo nome a Zefinha, toda vestida de branco, que oferecia flores a todos os amigos para ganhar simpatias.
- Quer uma flor? - dizia a simpática criança. – É muito linda e muito odorífera, saiu agora mesmo do quintal das Doroteias, fui eu que as colhi.
E os amigos, encantados com a generosidade da menina, colocavam a flor na lapela e a traziam ufanos para dizer aos patrícios:
“Olha a flor da Zefinha!”
Que graça!...

Isto de flores e de Zefinha tinha a ver com Tomás dos Santos, de certeza…

O cão de Tomás dos Santos

Os inimigos do Prior invejavam-lhe o cavalo, que ele chamava Marquês. Tendo talvez isso em conta, um dia O Poveiro falou dum animal de Tomás dos Santos, do seu cão: ele andava livre na Praça do Almada e rasgou as calças a um trabalhador. O jornal interpelou o Administrador e terminou assim a notícia:

Ah, cão, se não precisasse de ti para me guardares as flores e a pele, eu te faria pagar bem caro os 2#000 réis de multa! Mas perdoa-me, não vás tu fazer-me o que fizeste ao pobre trabalhador e eu ficar sem o meu fato cinzento!...

Lá vieram de novo as flores.

A perspectiva do Mons. Manuel Amorim

O notável historiador poveiro Mons. Manuel Amorim escreveu sobre Sebastião Tomas dos Santos estas duras palavras:

Tratava-se dum indivíduo de fora da terra, colocado como professor do liceu, que instalou na Administração as práticas da delação infiltrando espiões nas igrejas e estabelecimentos de ensino particular. Por este sistema levou o Prior Gonçalves da Silva a homiziar-se e os colégios Povoense e Moderno a fecharem as portas. O povo odiava o “Zefinha”, como era conhecido, e um dia correu-o da Póvoa a tiro. Em Julho de 1911, o cargo de Administrador é entregue a Santos Graça e a paz regressou à Vila.

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