sábado, 27 de março de 2010

4. Um padre que não combateu "o bom combate”


Se tivesse vivido nas décadas finais do Estado Novo, o Cónego Alberto Ricca, professor do Liceu, seria provavelmente avaliado como um padre “progressista”. Mas não foi progressista coisa nenhuma, foi só um cónego que se pôs do lado errado, do do inimigo, como tinha acontecido, ao tempo do Liberalismo, por exemplo, com o Padre Domingos da Soledade Silos, que foi pároco de Vila do Conde e fez depois o registo de baptismo de Eça de Queirós.
Ele era um elemento altamente perturbador neste confronto em que se defendida a Igreja face aos desmandos anticlericais da República. Uma vez o Intransigente colocou o Cónego Ricca como o terceiro republicano da Póvoa, após o Dr. José Pedro de Sousa Campos e António dos Santos Graça. E era verdade.
Por duas vezes, que saibamos, o Cónego Ricca enviou a Afonso Costa telegramas de apoio às suas medidas legislativas. Ao menos numa delas (na edição de 20 de Maio) O Poveiro denunciou publicamente a incongruência.
Professor efectivo do 1º grupo, nomeado em 12-6-1908, o Cónego Ricca foi eleito seu reitor em 21-10-1910 e tomou posse em 1-11-1910. Deixou de prestar serviço em 1-10-1912.
Veja-se como O Comércio noticiou e comentou a eleição do Cónego Ricca para reitor:

 Edital do Cónego Alberto Ricca como Reitor do Liceu

Reuniram hoje, de acordo com o último decreto do Governo Provisório da República, os professores do nosso liceu para procederem à eleição do Reitor.
Ficou eleito o professor Sr. Cónego Alberto Ricca.
Convém recordar neste momento, para mais para que mais patente fique a nossa simpatia pelo novo director do nosso mais importante estabelecimento de ensino, que foi o Sr. Cónego Ricca um dos poucos que ousou, na reunião do clero para a mensagem do Sr. Arcebispo de Braga, declarar que não assinava aquele documento por achar justo o castigo imposto pelo governo de então, lamentando, apenas, a suavidade da censura.
Felicitamos vivamente S. Ex.cia e apresentamos-lhe os nossos cumprimentos.

Em 24 de Julho, o Cónego Ricca perdeu completamente as estribeiras, agredindo publicamente o Prior. Este contou o sucedido n’O Poveiro:

Pelas três horas da tarde de hoje, segunda-feira última, achando-me na Rua do Almada, no extremo norte da casa do Sr. Matias Fiúza, a conversar com os Srs. Joaquim Costa e Silva, professor oficial de Amorim, e Eduardo da Silva Gomes, proprietário na Rua da Junqueira, fui surpreendido pelo Sr. Cónego Ricca, Reitor do Liceu desta vila, que, em atitude agressiva, me exigiu explicações pelo que se tem escrito n’O Poveiro a seu respeito.
Respondi-lhe, muito naturalmente e sem a menor exaltação, que nada tinha escrito.
Retorquiu: se eu dava a minha palavra de honra em como nada tinha escrito.
Respondi, outra vez, que nada tinha escrito a tal respeito. A resposta do Sr. Cónego foi atirar uma bengalada à cabeça, que, felizmente, nada me magoou e apenas me amachucou um pouco o chapéu de coco.
A bengala que me tocou o chapéu quebrou nessa ocasião, se é que não vinha já quebrada; porque efectivamente a amachucadela do chapéu ou denota muita força do agente ou muita fraqueza da bengala. Por isso a minha defesa correspondeu ao ataque simples e fraco, se bem que assazmente cobarde.
Devo confessar que nenhuma inimizade tenho ao Sr. Cónego Ricca; mas de nenhum modo posso concordar com certos actos públicos e, sobretudo, com a sua manifesta rebeldia em não obedecer às autoridades eclesiásticas, dispensando-se de obter do meu Ex.mo e Rev.mo Prelado a licença para celebrar.
É claro que nem sempre tenho tido conhecimento de tudo quanto se escreve n’O Poveiro, mas o que deixo dito não podia impedi-lo sem contrariar o meu próprio sentir.
O Sr. Cónego Ricca, talvez por um prurido de ascender a altas dignidades, tem, por diversos escritos, criado uma atmosfera bastante prejudicial para si, no meio deste bom povo.
O Poveiro, portanto, fazendo-se eco de boatos correntes e sobejamente públicos, não tem ultrapassado os seus deveres jornalísticos e, quando os ultrapassasse, aí estão os tribunais para julgar esses pleitos.
Não tomo a responsabilidade do que não escrevo, mas parece-me que o Sr. Cónego Ricca tem dado causa ao que tem dito O Poveiro.
“Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele”.
Um jornalista, como é o Sr. Cónego, com gestos leoninos que tem, devia compreender que é no mesmo campo que se terçam armas. […]

Esta ofensa pública e publicada desacreditava definitivamente o Cónego. O Prior saía-se desta “guerra acintosa” triplamente vitorioso: arrumava o Tomás dos Santos, o Cónego Ricca e deixava muito mal parada toda a imprensa adversa.

Sem comentários:

Enviar um comentário