sábado, 27 de março de 2010

3. O atentado contra a casa do Administrador


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No dia um de Junho de 1911, da parte da tarde, Tomás dos Santos comunicou em telegrama ao Governador Civil:

Casa Administrador alvejada esta noite com tiros e pedras, vidraças partidas, portas furadas. Rogo se digne enviar urgentíssimo dois polícias judiciários e oito civis. O Adm.dor Tomás dos Santos.

A imprensa mais esquentada do republicanismo poveiro vai-se exaltar e apontar logo o dedo ao Prior e ao seu jornal. O Intransigente, A Propaganda e o próprio Comércio como que rivalizam entre si a ver quem é mais severo na condenação do facto, mas sempre com a esperança de atingir o pároco da Póvoa.
A edição de 4 de Junho d’A Propaganda, num artigo bem destacado, intitulado “Sicários e conspiradores”, gritava assim o seu escândalo:

O que acaba de se passar na vila da Póvoa de Varzim é grave, gravíssimo, e a não serem tomadas providências, e rápidas, o caso é muito sério e teremos de optar por um de dois caminhos muito opostos: ou andar de bacamarte aperrado e atirar a matar sobre a quadrilha de conspiradores ou abandonar esta terra e fugir por falta de segurança.
Pela uma hora da noite de quarta para quinta-feira uma quadrilha de malfeitores-conspiradores assaltou a residência do Sr. Administrador deste concelho e, aos gritos subversivos contra as instituições, partiram-lhe três vidros das janelas, à pedrada, e despejaram cinco tiros de revólver, que foram assim empregados: uma bala furou uma telha do beiral, outra furou um vidro e a janela, outra bala cravou-se na parede e duas balas furaram a porta da rua. No portão do jardim colaram dois papéis, sendo um escrito a tinta vermelha onde, pouco mais ou menos, se lia o seguinte: se tentas saber quem foram os autores disto, o teu sangue correrá pelas ruas da Póvoa; já lavrou a tua sentença de morte o Comité Monárquico da Póvoa.
E assim puseram em sobressalto a família do representante do Ministério do Interior e assim desrespeitaram a primeira autoridade desta terra.
Isto é grave, gravíssimo, e é preciso saber-se, por força que não por jeito, quem é a escumalha de traidores que tão infamissimamente saiu à estacada na mais desaforada e ultrajante provocação.
É preciso saber-se quem foram os autores de tão nefando atentado; e, logo que apareçam, que sobre eles se descarregue o gládio da justiça, inexorável, para cortar cerce o mal que alastra, essa cáfila, talvez do conhecimento dos provocadores que semanalmente e no pasquim do Prior da Póvoa atacam por sistema, por malvadez, por espírito de seita negra, os caracteres impolutos, corações diamantinos, almas democratas de patriotas, amigos da República, amantes da Paz e do Progresso.
É preciso que a horda capitaneada pelo Prior da Póvoa seja chamada a contas, e mais é preciso que com o rótulo da República acabe o pasquim que o Prior da Póvoa pôs ao serviço de reaccionários, de monárquicos perigosos, de satânicos jesuítas que dizem tudo quanto maquinam, que bolsam todas as invectivas, que anavalham todas as reputações, numa peçonha de saramanganta, numa campanha de toupeira, numa ingratidão de jibóia entorpecida!
É preciso que se apurem os criminosos e se lhes dê o castigo devido, a eles a e aos cúmplices, que os deve haver.
Para trás, bando negro!
Para trás, inimigo da sociedade, Casério maldito, Revachol danado, Torquemada execrando, quem quer que sejas tu, sicário, alma patibular, desprezo dos homens!
Jogaram as últimas; é preciso que se exija unha por unha e dente por dente.
A escumalha da Póvoa, essa quadrilha de sicários e de selvagens que praticou o assalto tem mandante, tem guarda-costas, tem alguém interessado no abominável feito.

Neste escrito de ódio está o anticlericalismo em estado mais ou menos puro. Casério e Revachol foram dois anarquistas guilhotinados na França em finais do século XIX. A quem propósito vinham aqui eles?
Torquemada foi um conhecido e terrível inquisidor espanhol. Que vem ele aqui fazer?
Os republicanos seriam por norma “caracteres impolutos, corações diamantinos” ou por excepção?
Que era “horda capitaneada pelo Prior da Póvoa”?
Os piores inimigos República eram os seus insensatos amigos.

Um dos papéis colados "no portão do jardim" exprimia-se deste modo:

Esbirros!
Considera a manifestação d'esta noite que foi por nós prepositadamente disposta para que não corresse o teu sangue, como um protesto e um aviso. Protesto contra as revoltantes prepotencias que a abominável republica de que és representante tem commettido sobre o povo d'este concelho. D'aviso para que durante os poucos dias em que ainda possas ser auctoridade não uses descer á pratica de violências que tornem impossível a conservação da tua vida e da dos teus. O Comité Monarchico Revolucionário do concelho da Povoa tomou todas as precauções para que ninguém possa descobrir os executores d'esta sentença. Não investigues que nada consegues. Ai! de ti se tentares vexar quem quer que seja!
Morra a Republica! Viva a Monarchia!

Que isto era um primeiro desafio, e até ousado, ao novo establishment republicano, não havia dúvida. Mas em termos de indícios sobre os seus autores não levava e não levou a lado nenhum.
De resto, se o atentado ocorreu à uma da manhã e não fez o visado sequer levantar-se da cama – e ele tinha família – e só à tarde enviou o telegrama, é porque não se apoquentou muito.
Como, por toda a evidência da investigação levada a cabo, o desacato não foi provocado por gente ligada a O Poveiro, a conclusão parece ser a de que foi gente republicana que queria incriminar o Prior. Até a violência com que falaram parece denunciar perfídia.

 Pormenor da primeira página d'O Poveiro de 1 de Julho.

Mas se o ataque da imprensa ao Prior foi brutal, irresponsável e perpassado de elaboradas flores de estilo oratório, a derrota vai ser proporcionalmente estrondosa.
O Poveiro começou por responder às acusações em tom comedido, mas, depois de passada a borrasca, usou um tom muito duro:  homens da sua redacção tinham sido humilhados, estiveram presos e incomunicáveis cinco dias, por isso exigia-se agora uma desafronta.
O feitiço voltava-se contra o feiticeiro, contra Tomás dos Santos, contra a sua fúria lupina insensata, contra A Propaganda, contra O Comércio, contra O Intransigente. Eles meteram a viola ao saco e emudeceram.

No fim do mês, porém, o cargo de Administrador passava para Santos Graça. Como o Liceu ameaçava fechar por dificuldades económicas, o professor provisório Tomas dos Santos foi despedido.
Não deixava boa memória o professor-administrador.

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