sábado, 27 de março de 2010

2. A tomada de posse do novo Administrador: o lobo vestiu-se de cordeiro

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A tomada de posse de Sebastião Tomás dos Santos como administrador teve lugar em 27/2/1911; ele próprio o anunciou em telegrama ao Governador Civil:

Tenho a honra de levar ao conhecimento de V. Ex.cia que tomei hoje posse do cargo de Administrador deste concelho, para que fui nomeado por despacho do Ex.mo Ministro do Interior, de 23 do corrente.

Na altura proferiu este discurso:

Cidadãos e amigos
Tomando posse da Administração deste concelho, devo confessar-vos que, ao contrário do que alguém possa supor, não me seduziram as honras do mando nem fui nunca alvejado pela vaidade do destaque.
Aceitei de boa vontade este cargo não pelo que ele tem de agradável, mas sim pelo que ele tem de espinhoso.
Humilde obreiro da República, pela República trabalhei sempre; e de tal modo defendi o meu ideal que como perigoso às instituições monárquicas, eu me vi obrigado a abandonar Lisboa.
Como humilde defensor da República me apresento hoje aqui.
Não duvideis nunca da sinceridade das minhas intenções, não duvideis nunca da minha vontade de acertar.
Por mais de uma vez fui perseguido pela monarquia, mas nem a República é um regímen de perseguição, nem eu tenho qualidades de perseguidor.
A República é um regímen de paz, de moralidade, de justiça, de progresso e de tolerância.
Mas não devem os mal-intencionados confundir a tolerância com a cobardia.
A República é um campo aberto a todas as actividades; todo o homem honesto, todo homem de passado limpo de entre vós deve com a parcela do seu esforço cooperar no engrandecimento desta terra, deve com a sua boa vontade cooperar na defesa da República.
É essa leal e dedicada cooperação de patriotas que eu espero de todos e agradeço a cada um.
Fostes algum dia monárquico?
Talvez.
Monárquico sincero, leal, honrado, sem dúvida.
Mas no dia em que a Monarquia se vos apresentou manchada pela corrupção, coberta de lama por latrocínios de milhares de contos, estigmatizada enfim pela degradação moral mais abjecta, perdestes a vossa fé monárquica, e a República pôde implantar-se sem um único protesto vosso.
Ora se não estais com a Monarquia estais com a República e esta muito espera de vós.
Entre vós nasceram Eça de Queirós e Rocha Peixoto, homens que não honram somente esta terra, mas todo o Portugal, honram a nossa pátria.
Entre vós nasceu o ilustre chefe local do partido republicano, Dr. João Pedro de Sousa Campos, cuja austeridade de carácter é de uma honestidade inconcussa, cuja envergadura moral e política honra não só esta vila, mas todo o Partido Republicano Português.
Copiai estes virtuosos exemplos de trabalho e de nobreza de carácter; educai vossos filhos na escola da moral e do dever e vê-los-eis, em breve, se o não fordes já, sinceros republicanos, sem haver dado por isso.
É que a República é a Moral, é a Ordem, é a Liberdade, é o Progresso.
Cidadãos! Meus Amigos!
Viva a República!

É um texto bem escrito e construtivo, de paz, ao menos na aparência. De facto, estas palavra stinham para ele um sentido que escapava a muitos dos seus ouvintes.

O primeiro ataque de Tomás dos Santos, a reacção d'O Poveiro, a grande humilhação do Administrador

Mas Tomás dos Santos não esperou muito para despir a pele de cordeiro e mostrar-se na sua face lupina. Debatia-se então sobre um documento dos bispos portugueses que deveria ser lido nas igrejas, ao que Afonso Costa opõs uma terminante proibição. O novo Administrador toma, no caso, uma atitude bem capaz agradar aos seus mais radicais correligionários e certamente inspirada no estilo discriminatório do Ministro da Justiça.
É ao mesmo Afonso Costa que no dia 5, “de manhã”, envia o seguinte telegrama:

Ex.mo Ministro da Justiça
Lisboa

Ao tomar posse estava avisado prior Póvoa que não leu pastoral mas falando missa conventual disse ia consultar o arcebispo e se esse mandasse ler lia desse o que desse. Estão intimadas testemunhas terça-feira. Abades Amorim e Terroso leram parte pastoral antes avisados. Estes dois padres são conhecidos como reaccionários principalmente Amorim. Prior Póvoa maluco. Restantes sete freguesias não leram. Arcebispo primaz telegrafou ontem arcipreste Beiriz deste concelho aconselhando abades não ler pastoral nem referir-se a ela. Hoje cinco horas manhã saí percorrendo várias povoações mandando emissários às outras, nada anormal.
Administrador do Concelho.
Expedido em 5, de manhã.
Texto autógrafo do telegrama de Tomás dos Santos

Grande fervor republicano o do novel Administrador! Pelos vistos, os emissários mencionados por Tomás dos Santos eram autênticos espiões.
Este telegrama acabou por vir a público em dois jornais de circulação nacional, com a consequente difamação do visado. Imagina-se a surpresa e desagrado que isso terá provocado entre os católicos da Póvoa.
O Poveiro escandalizou-se com o telegrama do Administrador; o "sensatíssimo discurso" que proferira ao tomar conta do cargo não fazia prever um insulto tão descarado:

Parece-nos que Sua Ex.cia não foi feliz, o que deveras sentimos, em ferir uma nota tão forte, que tanto desagradou pela crueldade, que, mesmo que tarduzisse uma verdade, era, porque tinha de o ser, desagradável e comburente para o infeliz. Sua Ex.cia perdoe-nos que lhe digamos com o maior respeito, mas também com a rudeza de marinheiro: os poveiros foram, são e hão-de ser generosos com os seus hóspedes, mas magoam-se quando esses não lhes sabem corresponder dignamente. [...]
Maluco! Que triste, e nós o sentimos deveras que assim o denomine um hóspede na nossa terra há dois anos, que certamente nunca se afastouu do pároco desta vila, com quem se tem dado, sinal de que nunca receou qualquer manifestação que ele desse de alienado.

O Arcipreste mencionado no telegrama era o culto e sereno padre poeta António Martins de Faria.
Uma curiosidade: na véspera do envio do telegrama, O Comércio, certamente a partir de informação saída no jornal republicano portuense Pátria, anunciara a suspensão d'O Poveiro. De facto, os  acontecimentos que a seguir vão ter lugar acabarão por atingir uma clara ressonância nacional.

Tomás dos Santos podia contar com o apoio dos republicanos poveiros e do regime, de Afonso Costa; o Prior tinha por si quase a totalidade das gentes da Póvoa, à excepção naturalmente dos poucos fanáticos da República (e dos seus jornais).
No final daquele mês, em 29 de Março, o administrador há-de ter rejubilado por momentos, quando telegrafou para o Governo Civil o seguinte:

Fugiu Prior desta vila Manuel Martins Gonçalves da Silva, contra quem foi lavrado auto de investigação por incitamento povo a revolta. Povo republicano deste concelho representado nesta administração por uma grande comissão pede providências imediatas a fim de evitar conflitos.

Enganara-se, e muito. O Prior da Póvoa não fugira: fora ao Porto falar com o Governador Civil e expor-lhe o seu caso.
De facto a luta vinha a aquecer, por várias razões, e recaía sobre o Prior uma ameaça real de detenção, já que ele não acatava pacatamente os desmandos da nascente República.
Ao Governador Civil terá proposto que, se o quisesse prender, o fizesse ali, no Porto, mas nunca na Póvoa. Mas foi tão convincente no esclarecimento das suas atitudes que trouxe de lá um salvo-conduto, com data de 30 de Março, que o isentava, ao menos em boa parte, da jurisdição do Administrador. Nele se lia:

Enquanto por mim ou superiormente não for determinado o contrário, o Sr. Abade tem o direito de regressar à sua paróquia e exercer nela as suas funções, sem impedimento algum.

Grande humilhação para Tomás dos Santos!
Publicado n’O Poveiro em 8 de Abril, o documento há-de ter gelado as hostes republicanas.
E O Comércio fizera, uma semana antes (30 de Março), um ataque cruel ao Prior. Intitulava-se a coluna: “O Prior da Póvoa” e tinha como subtítulo “Basta! Basta!”; depois corria esta prosa indignada, insultuosa, ameaçadora e despropositada:

Não podemos, como republicanos, como patriotas, permitir que o Prior da Póvoa continue impunemente a difamar a República, a fomentar ódios, a sublevar o povo crente e ignorante da nossa terra.
Basta! Basta!
É necessário providências enérgicas; é urgente que as autoridades da nossa terra ponham cobro a este estado de coisas que não pode continuar por mais tempo.
Todos os domingos, a pretexto de qualquer coisa que nada tem com o culto, o Prior da Póvoa bota fala ao povo, no propósito único de alarmar a agente crédula, dizendo mentiras e falsidades, com uma hipocrisia de que só ele é capaz.


O algoz medieval Afonso Costa acaba de degolar o Papa e os Jesuítas.

No último domingo, então, o sermão tornou-se escandaloso, único.
Custa mesmo a crer que o arrojo de tal criatura chegasse a tanto!
Hipocritamente lacrimoso, com refinadíssima impostura, o Prior da Póvoa fartou-se de dizer sandices, de difamar a República.
E fê-lo com tal arte – pois o prior é um sublime actor – que conseguiu comover o auditório, composto em grande maioria da nossa pobre gente do mar que saiu do templo aterrorizada pelo que ouviu!
Não; isto não pode ser!
É necessário; é urgente que o Prior da Póvoa seja expulso para sossego de todos. E há-de sê-lo, estamos disso certos, a fim de evitar actos violentos em perspectiva e que são imprescindíveis quando as providências se demoram e não satisfazem os brios dos patriotas.
Fica dito o bastante para sermos compreendidos.
Basta!

Na lógica destes escritos está que a tudo a que a tirânica República (não havia coisa semelhante à face da Terra) dissesse só havia que obedecer sem discussão. E repare-se que a catilinária não tem por si nenhuma afirmação concreta do Prior, muito menos nenhum facto claramente comprometedor.
Como há-de ter sido doloroso resistir meses a fio a tão continuada prepotência!

Em 20 de Abril, sai a Lei da Separação. Terrível que ela era! Mas não surpreendia de todo: os visados já se vinham habituando a semelhantes desmandos. Já se proibira levar o Viático aos doentes (ao menos como dantes), a “cruz alçada” e sacerdotes de sobrepeliz nos enterros, dificultara-se o toque dos sinos e havia uma comissão paroquial que atrapalhava a vida paroquial.

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